sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Leia-me (Disso eu já sabia) "Pagando pela injustiça " #13



















Acabei de completar 18 anos e o meu "presente" é essa cadeia , preso por um crime onde eu não interagi. Eu consigo me enxergar pela a minha sombra , não tem um espelho onde eu possa ver a minha cara de falido , através dessa janela eu posso ver outro mundo. Eu estou me sentindo culpado mesmo não estando errado.A pessoa que eu cheguei um dia acreditar me colocou em mais uma emboscada .Desesperançoso eu pergunto ao zelador como está a minha amada e como está o meu amigo.Na minha sombra eu me vejo com bastante medo,cauteloso eu me deito com a intenção de que os dias passem rápidos.
Já se passaram 5 meses , não tenho notícias do mundo , não sei como está minha mãe , nem Fernanda,nem meus amigos.
Todos os dias vem o zelador me trazer a comida , não gosto nenhum pouco de comer a comida daqui ,mas não tinha outra opção então o jeito era comer pra passar a fome. Eu procurava algo pra me distrair,desenhava (na verdade rabiscava) em um caderno que pude conseguir companhia ,também escrevia,muitas cartas,poemas ,textos,não sei se um dia entregarei todas essas cartas ,ainda por que estava começando a achar que eu não tinha outra saída , eu ia morrer aqui.
Fui até a janela , me segurei pela grade e meti o rosto entre uma delas, vi carros passando , o sol clareando , eu estava tão concentrado vendo a "paisagem" , que tomei um susto quando senti um toque nas minhas costas era um homem de aparência jovem , seus olhos cheios de lágrimas , perguntou meu nome e eu respondi e também  perguntei o dele (Gabriel), ele estava tremendo,acho que estava doente ou com medo de mim , o assunto acabou depois de saber meu nome e eu o dele, ele se sentou ao chão e começou a chorar,fez um tremendo escândalo , sentei perto dele e perguntei o que ele fez pra merecer estar preso, ele ficou balançando a cabeça e repetindo as frases " Tentei salvar uma vida , tentei salvar , eu só tentei salvar  ... " percebi que não ia conseguir conversar com ele , então decidi outra hora dialogar com ele , me encostei na parede perto da janela observando novamente os carros e agora o Gabriel chorando , mas não demorou muito para eu me cansar de ouvir ele chorando , resolvi me deitar.
Já era de madrugada e Gabriel  não parava de chorar , eu não conseguia dormir direito , me levantei e fui até ele,olhou pra mim com aqueles olhos pedindo ajuda , então eu perguntei:
-Não vai parar de chorar ? Acho que é melhor você ir dormir...
- Não vou conseguir dormir.    respondeu 
-Mas o que você realmente tentou ajudar ?  perguntei curioso 
- É doloroso demais ... todos dizem isso que a culpa é minha , mas não é minha , eu só quis ajudar ,eu só quis ajudar.      Ele iria ficar repetindo aquelas frases de novo então continuei a forçar para contar o que fez
- Bom , não posso cupa-lo , não sei o que você fez. sínico eu disse , pois para estar ali  , algo de ruim teria feito ou então foi preso por algo que não fez.
-Você já ficou doente, quase morrendo e não tinha dinheiro para comprar remédios necessários para melhorar de uma doença ? ele perguntou .
- Não...            respondi , querendo saber  logo da história que ele estava prestes a contar.
-Pois então ...  ele foi se levantando mas não conseguiu , estava fraco , caiu na primeira e na segunda tentativa , ele gemeu de dor e pós a mão na perna , notei que estava com a perna ferida , parecia ter tomado um tiro ali.Ele desistiu de levantar e resolveu contar dali do chão mesmo:
-Com 16 anos engravidei uma garota de 15 anos , não trabalhava, achei que meus pais e os dela iam ajudar , mas achei errado , eles não aceitaram ajudar , meus pais me botaram para morar na rua , fiquei morando na casa de um amigo e os pais da menina a proibiu de continuar comigo e não queriam nem saber do filho , que quando nascesse quem iria ficar com a criança seria eu . Eu sabia que não seria fácil cuidar da criança sozinho e eu precisaria de dinheiro então  consegui um emprego para gastar com a minha filha , com 2 anos minha filha começou a ficar doente , levei à no medico , ele receitou tais remédios para que pudesse melhorar da doença que ela estava,pude comprar todos , mas apenas por 1 mês , pois fui demitido do emprego , sem trabalho não pude mais comprar os tais remédios para a minha filha melhorar , tive que sair na rua pedindo dinheiro , eu conseguia poucos trocados e não era o suficiente . Os dias foram se passando e minha filha piorando , o medico , disse que ela tinha que tomar os remédios logo se não "partiria" resolvi ir à uma farmácia pedir os remédios , o rapaz não quis me dar , eu o implorei , fiquei de joelhos e  ainda disse que se a minha filha não tomasse os remédios ela poderia morrer, o rapaz depois de ver tudo o que fiz e falei continuou rejeitando e ainda disse que aquilo não era problema dele , isso me gerou um grande ódio dentro de mim . Procurei um amigo para pedir emprestado um revolver que ele tinha, voltei outro dia na farmácia apontei a arma para o rapaz mandando ele me dar os remédios se não atirava , ele buscou e me deu , fui saindo depressa  mas fui surpreendido caindo depois de levar um tiro na perna , eu olhei para trás o rapaz ia dar o segundo tiro, dessa vez pra tirar minha vida , eu só estava pensando em salvar minha filha , não tive outra opção,atirei primeiro em seu peito , me levantei , tentando correr mas minha perna não queria me obedecer , cai no chão , tentei me rastejar , mas a dor era tanta que não pude fazer mais nada,  logo depois veio a polícia não queria nem saber do tiro que levei nem por que assaltei a farmácia fui preso e não tive outra escolha . E a ultima notícia que tive do mundo , foi de que a minha filha morreu ... "
ele olhou pra cima e continou...
-Peço à Deus que me leve também.
aquela história me emocionou , só pude dizer uma frase de consolo .
-Não peça à Deus que te leve, peça pra ele te dar forças e bençãos para fazer você ser forte e superar e enfrentar todo esse sofrimento , tudo irá passar...
-O que me resta mesmo é a morte.            ele disse dramaticamente 
-Não pense assim , ao menos dê valor a sua vida .    mais uma frase tentando consola-lo , ele não respondeu nada, apenas abaixou a cabeça e depois olhou para mim curioso e quis saber o por que eu também estava aqui , Contei à ele toda a história e ele repetiu 3 vezes depois de ouvir " injustiça , injustiça , é injustiça " . Ainda com sono depois da perdida madrugada resolvi ir me deitar.
Eu tinha achado que Gabriel iria parar de chorar depois daquela madrugada se desabafando , mas continuou bem-dispostamente chorando outros dias .
Não tinha como esconder , que eu não estava suportando isso, dava pra perceber pelo o meu rosto, pelo meu cansaço , pela minha baixa auto-estima , mas também motivos não faltavam, um dos motivos que estava já acostumado era o choro de Gabriel toda noite. Não queria pensar nos meus problemas , então para me distrair peguei meu caderno e fiquei "tentando desenhar" (eram apenas uns rabiscos que fazia) não conseguia me concentrar , meu pensamento me obrigava a lembrar dos meus problemas e da injustiça que cometeram , pra mim desistir de vez de desenhar  bastou ouvir o choro de Gabriel novamente ,  que me atrapalhou . Transformei nos únicos rabiscos que tinha desenhado em tinta molhada, chorei mágoas , mesmo.
No outro dia recebi cedo a comida, mas adivinharam pois eu já estava com fome, junto do prato de comida havia uma carta, curioso abri a carta ligeiramente .




"EU poderia muito bem trabalhar mais paracomprar tua liberdade , mas tudo o que você faz de errado tem uma consequência , então eu acho melhor você pagar por ela , me desculpe por não ajudar , talvez nos encontraremos futuramente ... Talvez ainda nos amamos , talvez nos odiamos e também talvez eu não saiba o que exatamente sentir e fazer por você. Será que te espero ou se certamente te deixo ? 
Eu tenho saudades de momentos em que me sentia acompanhada . Eu já tentei te esquecer mas suas lembranças sempre insistem permanecer.
Te avisar por essa carta , da minha proposta de trabalho era um dos meus motivos para te escrever . Estou indo para outro estado trabalhar , vou receber um salario razoável , o trabalho não é aqueles que se admira , vou trabalhar como empregada para uma advogada no Rio De Janeiro . 
Como eu já escrevi "talvez nos encontramos "quem sabe...


PS:Te amo ou " talvez " odeio .  
assinada:Fernanda .     "


Repeti a leitura umas 3 vezes , com a intenção de que a carta mudasse de acordo das vezes que lesse. Não queria mais comer, perdi a fome depois de ler a carta , foi a angústia que me conteve , fiquei me debatendo contra a parede por vários minutos . Eu com aquele maldito ódio e Gabriel com aquele choro inacabável .
Minha pergunta era sempre a mesma , por que nada dá certo? Eu estava deitado pensando e ouvindo o silêncio , estava tudo quieto , algo estava à acontecer , tive esse pré-sentimento, era realmente estranho pois a cadeia é bem barulhenta. Ainda pensativo, imaginei que Fernanda já poderia ter arrumado outra pessoa , gostaria muito de fugir daqui e impedir ela de sair do estado.O som de um sinal pode interromper meus pensamentos , era um sinal de emergência e uma voz surgiu do alto-falante, a voz pedia para todos evacuarem as celas e fossem para o pátio principal até eles controlarem algo que não pude entender , as celas foram abertas por outro prisioneiros, me assustei quando jogaram uma faca aós meus pés e dizendo que ia precisar dela . Sai da cela e estava indo à caminho do pátio principal , quando me deparei  com muitos prisioneiros  com pedaços de madeiras e facas nas mãos , esse medo que me continha era pouco, comecei a tremer ao ver outros prisioneiros com armas nas mãos , depois de vê-los já tinha entendido o que estava acontecendo, tratava-se de uma rebelião. Os prisioneiros foram até o outro lado da prisão , fui acompanhando com o olhar , ouvi tiros e gritos , eles voltaram carregando corpos e levavam um rapaz com a faca no pescoço o fazendo de refém , eu pensei que era só esse grupo de prisioneiros , mas ao chegar no pátio principal , vi quatro policiais mortos, eram eles que faziam a guarda do pátio , tentei voltar para a minha cela mas os rebeliados entraram no pátio com os corpos , fazendo uma grande pilha, me mandaram sair dali pois pretendiam atear fogo , fui tentar me proteger, fui atrás de outros policiais para ficar seguro, mas já era tarde os rebeliados tinha matados todos os seguranças do lugar,  olhei para o  corredor , onde lá no fundo se encontrava a saída da cadeia, fui andando até lá e já pudia ver à fora da cadeia , havia um portão e um muro onde tinha brechas que facilmente eu poderia me apoiar,pular e fugir. Eu não pensei duas vezes em fazer a coisa certa, dei meia volta e fui voltando para o pátio , olhei para os corpos , todos queimados e os restos dos rebeliados matando os outros prisioneiros que os odiava , caminhei até a minha cela, ainda observando toda a brutalidade , entrei em minha cela e me joguei no chão chorando e aclamando dor, ainda mais quando vi Gabriel morto , enforcado.
Não demorou muito para o batalhão da policia chegar e domar o lugar . Em pouco tempo os rebeliados estavam de volta em suas celas e alguns mortos pelo Batalhão , pois não queriam obedecer.
Eu tive cara a cara da liberdade , poderia fugir , mas iam me achar depois , talvez , e logo eu um rapaz bem sútil , iria ficar com peso na consciência , achei melhor pagar pelo erro que não cometi .
Os dias na prisão tinha voltado ao normal, aquela barulheira. A única coisa que me fez lembrar o dia da rebelião foi o alto-falante que chamava o nome de alguém , não conseguia ouvir qual nome ,mas soube que era o meu quando dois policiais vieram me buscar. Me levaram até uma sala onde dentro havia uma sala vidrada com 4 pessoas dentro , a sala onde eu estava era escura , mas na sala vidrada era bem clareada. Olhando fixamente para os 4 rostos me fizeram a pergunta :
- Qual desses é o Paulo ?
Olhei friamente para os rostos e não achei Paulo, nem mesmo uma semelhança do que estavam ali.Então logo respondi 
- Nenhum desses é Paulo
-Tem certeza ? Não está blefando? perguntou o policial achando que estava "escondendo o jogo" 
- Não vejo o Paulo ali...
Tudo bem, traga os próximos.  ordenou o policial .
Entrou mais 3 rapazes,fui olhando de rosto em rosto, o segundo rosto certamente e absolutamente eu já sabia quem era...

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