Entrando na festa fui direto ao bar não sairia dali até ficar exausto e quente por dentro, não era gole por gole e sim uma matada por vez, eu realmente queria ficar bêbado, pra talvez entender a noite, fazer a dor parar, sentir vivo, mesmo sendo delírio. Depois de virar doses suicidas na minha garganta, e com a loucura dançando comigo, a não lucidez se fez presente, e eu pude perceber, a música me fazia girar e girar, e eu estava feliz por estar ali, pude me alegrar depois de muitas frustrações e pesadelos. O problema de se estar feliz sozinho, é estar justamente sozinho, o receio de ficar só veio à tona, eu tinha que procurar alguém para diversão naquela noite. Caminhei em direção ao palco onde ficava o DJ e a área VIP, em frente estava um grupo de mulheres bonitas e chamativas, sorri para alguma delas e com passos fracos e zonzo tombei ao chão, e todas elas riram. Levantei devagar procurando por luz, estava com medo, risadas e zombarias perfuravam meus ouvidos, sufoquei o álibi, e sucumbi ao pânico, lembrei da voz doce que sempre dissera que tudo iria ficar bem, era só eu correr à caminho da luz que ficaria tudo bem, mesmo assim eu ainda sentia medo, fui em direção da luz, eram tantas luzes, tantas pessoas, tantos olhares e tanto de tanto. Cheguei até a saída e noite me cegava e eu ainda sentia medo, preso nas idéias de que indo para esta festa, conquistaria o esquecimento das frustrações de toda minha vida, eram o que os jovens acreditavam, - a vida é uma festa, gritou um deles segurando um copo cheio de vinho tinto e esbarrando em mim deixando cair um pouco de vinho na minha camisa.
- Desculpa amigo, não te vi... - disse a jovem carismática
- Tá tudo bem, tá todo mundo bêbado aqui... - respondi em tom irônico, ela sorriu, estava no fumódromo, e estava voltando pra dentro, era uma garota admirável. Sutilmente voltou e estranhamente parou na minha frente, olhou em meus olhos e perguntou o meu nome, (odeio meu nome), então menti e naquele noite me chamei de João, ela reagiu inconformada, parecia saber o meu nome verdadeiro, abaixou a cabeça desanimada e disse:
- Deixa pra lá então... pensei que fosse uma pessoa eu que conhecia, é muito parecido com você desculpa mesmo tá?! Deu meia volta e se dispôs á entrada novamente, sinceramente não à reconhecia, talvez seja a minha exaustão, ela não percebeu que eu estava meio fora de si, mas me culpava por não lembrar dela, era linda, branca cor da neve, tinhas sardas em seu rosto, cabelos longos e preto, como à admirei fui atrás. Toquei em seu ombro, ela virou assustada e aparentemente alegre, ela olhou atenciosamente nos meus olhos e acreditou que eu diria: "Lembrei de você!" mas eu estaria mentindo, se eu tivesse dito aquilo.
- Moça do vinho!
- Oi atrapalhado...
- Foi você que se esbarrou...
- Dois idiotas bêbados, vai!? Mas então, lembrou de mim?
- Tá bom, assumo, somos idiotas, numa festa idiota... é... então... - A voz procurava sentido e algo que fosse interessante, mas não uma mentira, não lembrei dela.
- Na verdade, eu quero conhecer você! Como é seu nome?
- Me chamo Letícia, você é o João né...
- Você disse que tem um amigo, que se parece comigo.. - Ela ficou desapontada, mas me respondeu com um sorriso me observando com olhares atenciosos e logo percebeu que eu realmente parecia o garoto que conhecia.
- Se você parece ele? Você é idêntico a ele, existem clones de pessoas e elas não sabem. Você mora por aqui... em São Paulo? - Ela também demonstrava procurar palavras certas.
- É, um clone meu anda por aí... Sim... quer dizer, eu moro em Guarulhos e você? - Mal terminei de dizer onde morava, e ela estava com um semblante surpreso.
- Jura? Você tá brincando? Além de parecer com meu amigo, você também mora no mesmo lugar que ele, só pode ser zoeira, não acredito, e eu também morei ali, toda minha infância morei lá, mas fui obrigada a me mudar... você mora a quanto tempo lá?
- Bom, eu tenho 23 anos... hm... desde os 0 meses na barriga da minha mãe.
- ela ri e continuou - Eu tenho 24, parece que foi ontem, eu era uma bailarina, heroína e superprotegida pelos meus pais e por esse meu amigo, melhores amigos de infância, você deve saber como é né? Cara você não tem cara de João...
eu achei hilário e quis garantir a mentira perguntando:
- Porquê tanta preocupação com o meu nome? - Em instantes obtive a resposta
- ... por causa desse "melhor amigo da infância", quer dizer eu não vejo ele faz muito tempo, muito tempo mesmo, já não sei se devo considerar, mas ele realmente parece com você. - Fiquei curioso e não hesitei em continuar:
- Onde e quando exatamente conheceu ele? A infância foi quase agora, nessa festa, talvez? - Ela nem precisou esforçar para lembrar, sabia como se fosse ironicamente ontem
- Eu o conheci quando éramos crianças; fazíamos tudo juntos; morávamos no mesmo bairro, estudávamos na mesma escola e na mesma sala, crescemos juntos... - Continuei com a curiosidade
- Se cresceram juntos, então porque não vê mais o seu amigo? - Se entristeceu a voz e respondeu
- Eu tive que me mudar aos 12 anos para longe dali, fui para Minas Gerais, onde moro atualmente... mas eu prometi que voltaria, prometi que eu viria ele de novo, assim que completarmos 13 anos, até porque minha vó ficaria morando na minha antiga casa e eu poderia voltar... eu sentia um amor tremendo por ele, eu amava a nossa amizade, nossos segredos, nossas promessas, nossas memórias...
- Então a moça do vinho se mudou para Minas... e nunca mais foi ver o melhor amigo da infância, e essa a história triste? Porque prometeu a ele que voltaria? - Ela abaixou a cabeça triste, parecia que não gostava de lembrar dessa parte da história
- Eu voltei... mas depois de um ano do combinado. Saímos um pouco, ambos tínhamos mudado, a vida não era a mesma para nós. Ele conheceu pessoas novas e eu também, só que antes... não existia outros, né?! Era só eu e ele... - E o que fez vocês mudarem? Uma história assim merece minha atenção.
- Ah meu... O tempo... tudo foi passando e aos 16 anos pude perceber que ele tinha se esquecido dessa nossa velha infância. Se comunicávamos através de cartas, e assim combinávamos de se encontrar; pelo menos uma vez há cada dois meses nós víamos. Em suas cartas contava suas novidades e deixava lembranças. Contava sobre: seu novo amigo, sobre garotas novas na escola, sobre paixões novas, que estava estudando música e inglês. Nossa amizade não era como antes, não pensávamos iguais e os gostos e idéias eram outras, mas eu não liguei pra isso, até porque sempre vi ele como uma pessoa especial pra mim...
- Mas como isso tudo pode terminar mal? Contar fatos desde sua infância está me empolgando moça - Ela se desanimou ao notar a ironia, e quis encerrar a conversa.
- Melhor deixarmos pra lá... tá chato já falar só de mim. Fala de você, da sua infância se quiser. - Tremeu tímida e cautelosa.
- Não, olha que isso, me desculpe, pode continuar. Eu quero ouvir o que aconteceu.
- Isso não é mais importante agora... até porque terminou bem infantil.
- E como é terminam "bem infantil?" - Ela voltou a sorrir, e ergueu a sobrancelha direita.
- Tá! Vou te contar seu curioso... Nosso ultimo encontro, e também a ultima vez que se vimos, foi num restaurante na av. Paulista, levei uma amiga, e ele o novo amigo. Sentei de frente com ele. Ele estava empolgado desta vez com o nosso encontro, todo sorridente vestido de social, estava bonito, mas era engraçado ver um menino de 16 anos vestindo terno e sapatos, talvez seja por eu ter levado minha amiga. O novo amigo era bem atraente e bonito. Apresentei ele a minha amiga, e os dois passaram a conversar. A gente estava se divertindo, conversamos bastante e comemos bastante. Meu melhor amigo se levantou pra ir ao banheiro, olhou para o lado e reparei que o amigo dele fixava os olhos em minha boca, e sorria um sorriso falso, olhou para direção ao banheiro, não viu ninguém, fiquei pálida e tímida, pegou uma das minhas mãos e me roubou um beijo. Foi sufocante. Eu não esperava por isso, era o amigo do meu melhor amigo me beijando. Eu fiquei confusa e de repente assustada quando ouvi uma voz familiar, eu olhei para trás e lá estava ele, apertando com força um buquê de rosas e olhando furiosamente para nós. Gritou para nós, eram palavras que doíam. Ele se apoiou na mesa, veio com o rosto perto do meu, estava chorando, e a unica coisa que disse para mim, foi para que eu o esquecesse... - Passamos muito tempo conversando até noite não ser mais noite, o sol estava nascendo, e eu pude enxergar os esbeltos olhos azuis brilhando juntos aos meus, forçando mais ainda ao brilhar com a luz do sol que batia em nossos olhos. Madrugamos ali, lépidos e tão jovens. Passou tão rápido, nem pude notar isto. Cada palavra dela foi mastigada, e não muito processada na minha mente, mas a confusão e perturbação vieram. Parecia que eu a conhecia, de outros carnavais, de outros festivais, de outros passados ou de outros futuros. Ela não precisava contar o resto da história eu me lembro muito bem do que tinha acontecido naquele dia, eu realmente a conhecia, olhei para o rosto dela tremido e fraco:
- E vo...você esqueceu...? Você foi feliz, e ele não né? - Queria balbuciar alguma outra besteira poética, mas doeu mais lembrar da verdade do que o sol me queimar e me levar a ressaca me virei para ir embora, e corri pra me perder por aí... novamente. Ela não entendeu,só ficou ali parada observando minha loucura, sem entender nada, e eu era criança ainda quando aconteceu, mas doeu, então eu corri pra sobriedade e desapareci por uns instantes.
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